quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Unilateralidade

O diário de uma surda
Unilateral
Sabe como é
É escutar um barulho
Algo batendo
E você não sabe mais
De onde é
Era tão perto
Mas você achou que era longe
Parecia algo muito sério caindo no quarto
E você estava no banheiro
Sao meia-noite
Será lá perto da crianças
Toda vez que eu não sei mais
O que era e de onde vem
Lembro de minha amiga surda
Que colocou aparelho a primeira vez com mais de 18 anos
Ela enlouqueceu de tantos ruídos
Tocava na cama, na mesa, não sabia pequenos ruídos de onde vinha
Ela jogou os aparelhos no lixo
Estava enlouquecendo
Preferiu a paz
Entao, depois de muito eu procurar
Vi que foi o vitro do banheiro que eu estava
Do lado do ouvido que não ouço nada
Mas o som entrou pelo outro, é claro
Com outro caminho, me quebra a noção
De lateralidade.
E assim está sendo por longos meses
Se me chamam, eu não sei onde está a pessoa
Isso que são meus filhos aqui em casa
E no médico/atendimento
Não tenho vergonha de perguntar
Foi em qual sala que saiu o som?
Também não consigo mais atravessar a rua
No ouvir como eu fazia ainda de costas eu sabia
Nem de frente eu confio, tenho que olhar e trilhar
Coisas de uma surda
De um lado só
E sou grata por poder ouvir
Sei que muitos meus amigos não podem.
Adaptações.
E viva para seguir na missão.

Amarolando
Namastê ☀️
01/10/2020

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